A Questão Espiritual dos Animais (Dra. Irvênia Prada)

A Questão Espiritual dos Animais (Dra. Irvênia Prada)
Irvênia Di Santis Prada – 16 de maio de 1999
Animais têm alma?
No início do século, Ernesto Bozzano, uma das maiores expressões do Espiritismo, publicou o livro Os animais têm alma?, no qual relata cerca de 130 casos de manifestações metapsíquicas em animais. Gabriel Delani e Herculano Pires, entre outros autores espíritas, também publicaram livros sobre o assunto, de onde pode-se concluir que existe nos animais algo mais que o mero invólucro físico.
A propósito do sofrimento dos animais, cabe lembrar o ensinamento de Emmanuel, através de Chico Xavier: “Que mal terá feito o aprendiz ao ir à escola?”. Quando, numa manhã fria, tiramos um filho pequeno da cama para mandá-lo à escola, podemos dizer que ele está pagando algum pecado? Claro que não. Ele vai para a escola para aprender.
Na escola da vida chamada Terra, o aprendizado tem um subproduto que se interpreta como sofrimento e que nada mais é que oportunidade de crescimento. É assim que se deve conceituar também o sofrimento dos animais. Quer o princípio inteligente esteja habitando em animais quer no homem, o sofrimento é sempre oportunidade para aprendizado e amadurecimento. Os animais estão, igualmente, aprendendo; por isso, eles têm também esse subproduto chamado sofrimento.
Animais podem ser médiuns?
Dependendo do conceito que se faça de médium, há três situações a analisar:
1. Manifestações inteligentes ou intelectuais. Sabe-se que em casos de psicofonia ou psicografia, por exemplo, existem registros na memória do médium que são aproveitados pelos Espíritos comunicantes para facilitar a comunicação. Nesse caso, é muito difícil que os animais possam servir de médiuns, porque no cérebro deles, certamente, não há muitas das informações de que os Espíritos necessitam para suas comunicações.
2. Manifestações de efeitos físicos. O médium funciona como colaborador. Como doador de fluidos. Nesse caso, é provável que os animais possam agir como médiuns.
3. Manifestações de sensibilidade, clarividência e clariaudiência. O médium apenas sente a presença de entidades, ou vê ou ouve os Espíritos. Nesse caso, com toda a certeza, pode-se afirmar que sim. Os animais sentem, ouvem e vêem os Espíritos. De todo modo, a mediunidade nos animais é mais uma questão cuja abordagem deve ser acoplada à própria discussão do conceito de médium.
A alma dos animais evolui?
Se chegarmos à conclusão de que os animais têm alma, uma segunda pergunta deve ser respondida em seguida: o Espírito humano representa a continuidade evolutiva da alma dos animais?
Para responder a essa pergunta, é preciso recorrer às obras da Codificação e da literatura espírita:
A verdadeira vida, tanto do animal como do homem, não está no invólucro corporal, do mesmo modo que não está no vestuário. Está no princípio inteligente que preexiste e sobrevive ao corpo. Gênese (Cap. III/21)
Os animais têm uma inteligência que lhes dá uma certa liberdade de ação; há neles um princípio inteligente independente da matéria e que sobrevive ao corpo. Livro dos Espíritos (questão 597)
A inteligência do homem e a dos animais emanam de um princípio único. No homem, ela passou por uma elaboração que a eleva sobre a dos brutos. Livro dos Espíritos (questão 606 a)
É nos seres inferiores da criação, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco e ensaia para a vida. É, de certa maneira, um trabalho preparatório, como o da germinaçãoe, em seguida ao qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito. É, então que começa para ele o período de humanidade, e com este a consciência do seu futuro, a distinção do bem e do mal e a responsabilidade dos seus atos. Livro dos Espíritos (questão 607 a)
Desde a ameba, na água tépida dos mares, até o homem, vimos lutando, aprendendo e selecionando invariavelmente. No Mundo Maior – André Luiz (cap. III)
O animal caminha para a condição de homem tanto quanto o homem evolui no encalço do anjo. Emmanuel – Alvorada do Reino
Bem pode dar-se que corpos de macacos tenham servido de vestidura aos primeiros Espíritos humanos, forçosamente pouco adiantados, que viessem encarnar na Terra. Como na Natureza não há transições bruscas, é provável que os primeiros homens que apareceram na Terra pouco diferissem dos macacos pela forma exterior e não muito também pela inteligência. Gênese (Cap. XI/15-16)
Atualmente, isso está comprovado pela ciência. O chimpanzé, primo afastado do homem, pertencente a outro tronco de nossa árvore evolutiva, possui um genoma apenas 1,6% diferente em relação ao do homem, ou seja, o código genético humano tem 98,4% de identidade com o do chimpanzé.
Instinto e inteligência
A Etologia – estudo individual e comparado do comportamento dos animais – comprova experimentalmente a existência de uma espécie de inteligência nesses seres. A essa espécie de inteligência, Kardec chamava inteligência instintiva. Segundo a teoria espírita da evolução, ela se manifesta no ser humano sob o nome de instintos.
Ontogênese e filogênese
Estudos atuais mostram a relação existente entre a Ontogênese – desenvolvimento individual de um organismo, do ovo à fase adulta – e a Filogênese – evolução progressiva de uma espécie ou grupo biológico, a partir de uma ou mais formas primitivas originárias.
O esforço da criança de um ano de idade para conquistar a postura ereta, que se processa em quatro fases – rastejar, engatinhar, puxar as coisas e finalmente ficar em pé -, lembra o aprendizado do princípio inteligente no seu esforço filogenético para conquistar a postura ereta, inexistente nos animais.
Os profissionais que trabalham com a fisioterapia e a terapia ocupacional têm afirmado que, nos casos de deficiências motoras, estão obtendo ótimos resultados com tratamentos que retomam os estágios iniciais da manifestação motora, ou seja, retomar a sucção, o rastejar, o andar de quatro para, finalmente, resgatar toda a função motora mais especializada.
O retomar do início facilita as coisas. Se interrompermos a execução de uma música no teclado ou a declamação de uma poesia, seremos mais bem-sucedidos retomando-as do início que do meio para o fim.
Isso demonstra que o Espírito já passou por esse aprendizado em fases anteriores. Para vencer a dificuldade, é muito mais fácil para ele recapitular o que aprendeu.
Ontogênese recapitula filogênese
O embrião humano de 21 dias e o embrião do porco de 31 dias possuem arcos branquiais idênticos. Quem tem brânquias são os peixes. As primeiras fases do embrião – do ser humano, dos suínos, dos cavalos, dos cães e assim por diante – têm as mesmas formas e características, porque, a partir da célula-ovo, ele recapitula todas as suas formas evolutivas anteriores e o organismo humano acaba ficando com resíduos dessas estruturas. Nós já tivemos brânquias em determinado momento de nossa jornada evolutiva.
No cérebro, podemos comprovar isso de maneira mais clara. O projeto que estrutura a formação do cérebro dos animais e o do homem é o mesmo.
Lembra o brinquedo de blocos para montar: permite a montagem de casas simples a castelos. Nos peixes, só existem alguns tijolinhos; os répteis têm um pouco mais; nas aves e nos mamíferos, já aparecem formando camadas; no homem, ele é bastante aperfeiçoado. A estrutura e o projeto, porém, são os mesmos.
Segundo estudos atualizados, os cientistas notam que, desde os peixes até os mamíferos, a medula espinhal já possui estabilidade morfológica. O cérebro é que ainda está em processo de modificação lenta. Isso é notado em todos os animais, inclusive no homem. Segundo esses cientistas, o homem do futuro ainda vai sofrer muita modificação em sua massa cerebral.
Relacionados ao tema, é possível lembrar os ensinamentos de André Luiz (No Mundo Maior, capítulos III e IV), que diz: “O cérebro é a casa mental, órgão sagrado da manifestação da mente em trânsito da animalidade primitiva para a espiritualidade humana”. “O mundo das idéias passa para o corpo físico e se torna idéias através do cérebro”.
Essa casa mental possui três andares:
1º andar – o Inconsciente: onde estocamos toda a aprendizagem do passado. É o id, a sede dos instintos, hábitos e automatismos. É a parte mais representativa do cérebro dos animais.
2º andar – o Consciente: É tudo o que está entrando no nosso cérebro agora. É o ego, o presente. Representa nossas conquistas e esforços de vontade.
3º andar – o Supraconsciente: É o superego, onde trabalhamos nosso futuro. Representa nossas ascensão, idéias e metas.
A parte do cérebro que atua com as funções mentais mais elevadas é o lobo frontal do crânio. Nos chimpanzés, a parte menos evoluída do cérebro está exatamente no lobo frontal, ou seja, neles ainda predominam os instintos (1º andar).
Nos processos obsessivos, há uma espécie de desligamento das atividades superiores e o comando passa a ser feito pelas áreas primárias e instintivas. O corpo físico executa funções automáticas, independentemente da vontade e da razão.
Ainda em No Mundo Maior, André Luiz relata o caso de um processo obsessivo entre um obsediado encarnado e o obsessor desencarnado. Espiritualmente, rolaram do 3º andar, entregando-se ao relaxamento da vontade; deixaram de abrigar-se no 2º andar, perdendo a oportunidade de reerguerem-se e caíram na esfera dos impulsos instintivos, no 1o andar, onde estão arquivadas todas as experiências da animalidade anterior.
Para encerrar, cabe chamar a atenção para o fato de que, de acordo com o observado em meu trabalho, os estudos científicos atuais, particularmente a Etologia, comprovam tudo o que Kardec, André Luiz, Emmanuel e os Espíritos Superiores têm revelado nesse campo, ratificando as palavras de Kardec: “Ou a Doutrina Espírita caminha com a Ciência, ou a Ciência caminhará sozinha”.
***

*Dra. Irvênia Prada é veterinária, e trabalha no campo da Neuroanatomia de animais. Oradora e escritora espírita, no livro A questão espiritual dos animais, aborda, à luz da Codificação Espírita, as descobertas da ciência atual sobre o tema.

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