Allan Kardec e o Surgimento da Doutrina Espírita

Allan Kardec e o Surgimento da Doutrina Espírita

“Por uma aberração da inteligência, há pessoas que não vêem nos seres orgânicos mais dos que a ação da matéria, e a esta atribuem todos os nossos atos. Não vem no corpo humano senão a máquina elétrica; (…) Felizmente, essas idéias estão longe de ser generalizadas; (…) Graças às comunicações espíritas, os próprios seres de além-túmulo nos vêm contar sua situação, os incrédulos assim encontram sua fé e os tíbios uma renovação do fervor e da confiança. O Espiritismo é o mais poderoso auxiliar da Religião.” (Allan Kardec. O Livro dos Espíritos pp. 113 e 115)

Durante os séculos XVIII e XIX, a França se ergueu como o farol da intelectualidade no Ocidente. Juntamente com suas rivais Inglaterra e Alemanha, a França dirigia os rumos do intelecto humano e a sua capital, Paris, a cidade luz, atraía a atenção dos cientistas, filósofos, professores e artistas da época.
Impulsionado pelas conquistas da revolução científica na Europa desde o século anterior, com Kepler, Bacon, Galileu e Descartes, surgia na França, então, o Iluminismo que afirmava: Todos os homens são iguais. As palavras-chave da filosofia iluminista, representada por ilustres homens como Voltaire, Hume e Diderot eram: razão e ciência, assinalando grande progresso científico e visão lógica e racional do mundo. A Revolução Francesa, levantando sua bandeira: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, desmistificou a pseudo-superioridade das classes privilegiadas dos aristocratas e do clero católico e o Liberalismo, marcando então a ascensão da burguesia, valorizava a iniciativa e capacidade criadora individual, consolidando o Capitalismo.
Com a inexorável evolução do pensamento humano, no século XIX, o espírito científico passou a ser o critério supremo na compreensão e análise da realidade e a determinar as novas maneiras de pensar e viver na Europa, repercutindo na economia, na filosofia e na organização social. A corrente filosófica do Positivismo com Auguste Comte traduziu essa visão de mundo, asseverando que o progresso material por si só seria o suficiente para neutralizar os desequilíbrios sociais, reduzindo todos os fenômenos ao aspecto material, formulando uma concepção predominantemente materialista da vida.
Portanto, nada mais lógico do que ser a França, o grande centro intelecto-cultural do mundo na época, escolhida pela Providência Divina para a eclosão do Espiritismo. Inúmeros são os fatos históricos que levaram esse país à sua posição perante o mundo, o que aliás evidencia a sua preparação providencial, desde o fim da Idade Média, conforme veremos mais adiante, para ser o berço da doutrina que uniu a ciência e a religião.
Mas foi em 03 de Outubro de 1804, plena era napoleônica, que nasceu, em Lyon, o Codificador da Doutrina Espírita: Denizard Hippolyte Léon Rivail, que mais tarde adotaria o pseudônimo de Allan Kardec. Doutrina esta que é a única capaz de consolidar a verdadeira fé inabalável, “que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.”
Filho do juiz Jean Baptiste-Antoine Rivail e de Jeanne Duhamel, Denizard Rivail mostrava interesse pela leitura já em tenra idade. Discípulo de Jean-Henri Pestalozzi, falava fluentemente vários idiomas, bacharelou-se em Letras e Ciências e fundou em Paris o Liceu Polimático, uma escola baseada no método de seu mestre Pestalozzi. Ele estava realmente empenhado no aperfeiçoamento pedagógico da educação francesa e, por isso, escreveu vários livros, sendo premiado em 1831 pela Academia Real de Arras. Por esta mesma época casara-se com a professora Amélie Gabrielle Boudet.
Quando tudo parecia ir bem, seu tio, que era também seu sócio, leva o Liceu à ruína por dissipar vastas somas em dinheiro no jogo. Para sobreviver, Rivail lança-se a escrever livros didáticos, trabalhar como contador de três firmas comerciais e dar aulas de Física, Química, Astronomia e Anatomia Comparada, muito popular entre os jovens da época. Depois de algum tempo, ele já tinha o necessário para viver com certo conforto novamente.
Por esta época, mais especificamente no ano de 1848, na casa de uma família metodista chamada Fox, no vilarejo de Hydesville, estado de New York, nos Estados Unidos da América, fortes pancadas começaram a serem ouvidas freqüentemente no quarto das irmãs Katherine e Margaretta. Foi quando a pequena Kate, contando apenas nove anos, resolveu desafiar o “batedor”, que ela mesma apelidara de “perneta” (devido ao barulho típico que ele fazia no seu andar misterioso), a reproduzir as pancadas que ela mesma daria. A prontidão das respostas acabaria por marcar oficialmente o início desse tipo de comunicação entre os vivos e os mortos, embora a mediunidade sempre tenha existido na história da humanidade, conforme comprovam inúmeras lendas sobre fantasmas e assombrações que são passadas de geração em geração, em todas as partes do mundo, e até mesmo nos livros bíblicos.
Mais tarde, soube-se que o espírito batedor chamava-se Charles Rosna, pois, comunicando-se através de um código de pancadas nos objetos, narrou seu assassinato, fato depois comprovado com o encontro do seu corpo enterrado sob a casa.
A notícia dos “fatos misteriosos” se espalhava rapidamente através dos jornais da época e logo as irmãs Fox foram submetidas às mais complexas experiências dos sábios pesquisadores europeus, que foram unânimes em atestar as faculdades mediúnicas das meninas e reconhecer a existência de um princípio inteligente por detrás dos fenômenos. Nesta época, alastrava-se pela Europa uma moda de diversão através das mesas girantes, que consistia em fazer perguntas ao redor de uma mesa que respondia através de pancadas e, posteriormente, montava palavras apontando para as letras do alfabeto que eram colocadas ao seu redor de forma circular, sendo que, não raro, a mesa levitava e girava no ar.
Após Hydesville a mediunidade eclodiu com admirável intensidade em várias partes do mundo. Foi-se aperfeiçoando as comunicações e em 1853 através de um lápis fixado em uma cestinha de vime, graças ao concurso de um médium que mantinha sua mão suavemente sobre a cestinha, surgiu a psicografia.
Em 1855, Denizard Rivail, graças à insistência de seus amigos, testemunha pela primeira vez o “fenômeno das mesas girantes” e aceita estudar racionalmente as leis que regem tais fenômenos. Comparando o conteúdo das comunicações recebidas por diferentes médiuns das mais diversas localidades e constatando a similaridade entre elas, ele convenceu-se da existência dos espíritos e passou a dedicar sua vida ao Espiritismo, ulteriormente fundando a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e a Revista Espírita para divulgação das experiências e da doutrina, ambas em 1858.
A Doutrina Espírita surgiu oficialmente para o mundo em 18 de Abril de 1857 com a publicação de “O Livro dos Espíritos”, escrito por Denizard Hippolyte Léon Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec, em Paris.
Convém salientar, entretanto, que Kardec não foi o autor da doutrina; ele foi o Codificador; compilou e coordenou as grandes indagações submetidas aos espíritos superiores, cujo conjunto de perguntas e respostas compõe “O Livro dos Espíritos”.
Kardec começou levando à apreciação dos espíritos questões científicas de conhecimento da época. Surpreendeu-se obtendo respostas precisas sobre assuntos que certamente fugiam à compreensão dos médiuns. Passou a levantar questões em que os filósofos e cientistas da época possuíam pontos de vista divergentes e, por fim, questionou sobre assuntos que nem os mais sábios tinham respostas formuladas, sempre obtendo respostas convincentes, de uma profundidade filosófica e psicológica desconcertantes.
Depois de “O Livro dos Espíritos”, consolidando a doutrina espírita, Allan Kardec levou ao prelo “O Livro dos Médiuns” (1861), “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (1864), “O Céu e o Inferno (1865)” e “A Gênese” (1868), compondo o chamado Pentatêutico Kardequiano. Graças à sua formação de educador, a Codificação Espírita possui linguagem muito clara e objetiva, de qualidade surpreendentemente bem elaborada, possibilitando a compreensão dos mais complicados temas.
Sempre lúcido e lógico, Kardec soube como enfrentar a oposição e a difamação de inimigos gratuitos com sua dignidade e coerência peculiares, reconhecendo quando algum argumento oposto tinha valor sério e sincero. Jamais deixou de questionar e buscar a verdade; nunca abriu mão da disciplina e total dedicação aos seus princípios. Grande homem, desencarnou aos 65 anos de idade, em 31 de Março de 1869, da mesma maneira que passou a sua vida: trabalhando!

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