De vez em quando (Richard Simonetti)

Deus consola os humildes e dá força aos aflitos que lha pedem. Seu poder cobre a Terra e, por toda a parte, junto de cada lágrima colocou Ele um bálsamo que consola. A abnegação e o devotamento são uma prece contínua e encerram um ensinamento profundo. A sabedoria humana reside nessas duas palavras. Possam todos os Espíritos sofredores compreender essa verdade, em vez de clamarem contra suas dores, contra os sofrimentos morais que neste mundo vos cabem em partilha. Tomai, pois, por divisa estas duas palavras: devotamento e abnegação, e sereis fortes, porque elas resumem todos os deveres que a caridade e a humildade vos impõem. O sentimento do dever cumprido vos dará repouso ao espírito e resignação. O coração bate então melhor, a alma se asserena e o corpo se forra aos desfalecimentos, por isso que o corpo tanto menos forte se sente, quanto mais profundamente golpeado é o espírito.

Essa manifestação, que consta do capítulo VI, item 8, de O Evangelho segundo o Espiritismo, é assinada pelo Espírito de Verdade.

Enfatiza a presença de Deus no Universo, consolo dos aflitos, amparo dos desvalidos.

Nos séculos passados floresceu a idéia do panteísmo, segundo a qual Deus seria o somatório universal, isto é, o Universo seria o corpo de Deus e nós seríamos átomos divinos, parte do Criador.

O Espiritismo nos ensina que não é bem assim. Deus é a consciência cósmica do Universo, o Cérebro Criador. Está em tudo e em todos, sustentando a vida e a harmonia do Universo, mas não somos substância dele. Apenas suas criaturas.

Jesus simplifica.

Deus é o Nosso Pai, de infinito amor e misericórdia, que nos ama desde o princípio e nos conduz pelas veredas da justiça, como ensina o salmista.

Por isso, Evangelho significa Boa Nova. A notícia de que temos alguém muito poderoso, todo bondade e solicitude, a cuidar de nós.

*

Se acreditamos nessas afirmativas, se estamos conscientes da presença divina, por que, freqüentemente, nos sentimos combalidos e tristes, amargurados e perturbados?

É um tanto contraditório, como alguém que tem uma despensa cheia de alimentos e reclama que está com fome.

Isso ocorre porque a nossa fé situa-se um tanto precária, fé para os dias felizes, quando tudo corre bem.

Se surgem atribulações, vacilamos.

É preciso, portanto, fortalecer a fé.

Como? Freqüentando mais as casas religiosas, orando mais, lembrando mais de Deus? Tudo isso pode ser bom, mas não é suficiente. Falta algo, exatamente o que destaca o Espírito de Verdade: abnegação e devotamento.

A verdadeira oração, sempre presente, como se fora uma respiração espiritual, que nos habilita à permanente comunhão com Deus, não é feita de palavras, mas desses dois sentimentos, que precisamos definir bem, até para que possamos exercitá-los.

Primeiro a abnegação. Explica o dicionário:

Ação caracterizada pelo desprendimento e altruísmo, em que a superação das tendências egoísticas da personalidade é conquistada em benefício de uma pessoa, causa ou princípio.

Simplificando. Abnegação seria o esforço por vencer o egoísmo, exercitando a iniciativa de fazer algo em favor do bem comum.

Aqui há uma dificuldade: o ser humano é um de-vez-enquandário.

O médico conversa com o paciente.
– Sua pressão está alta. O senhor está com o peso acima do normal. Os índices de colesterol são ruins. Tem feito regime alimentar, como lhe recomendei, evitando alimentos gordurosos e calóricos?
– De vez em quando, doutor. Não resisto à picanha e aos doces.
– Exercícios físicos e respiratórios?
– De vez em quando. Acho enjoado.
– Cuida de trabalhar com disciplina, observando horários de repouso?
– De vez em quando. Há mil coisas a fazer!
– Dorme oito horas diárias?
– De vez em quando. Não resisto aos filmes na madrugada.
– Então, meu amigo, de vez em quando você vai ter problemas de saúde, culminando, provavelmente, com uma dor no peito muito forte, em enfarte fulminante, quando a morte, que não é de-vez-enquandária, o carregará de vez para o Além.

Algo semelhante acontece com a abnegação.

Não vale cultivá-la de vez em quando.

– De vez em quando atendo o pobre que bate à minha porta…
– De vez em quando tolero as impertinências da minha sogra…
– De vez em quando não mando alguém que me aborreceu para o diabo que o carregue…
– De vez em quando peço perdão por uma má palavra…
– De vez em quando trabalho como voluntário numa instituição filantrópica…
– De vez em quando participo de um grupo de trabalhos mediúnicos…

Imaginemos uma empresa de eletricidade que forneça energia elétrica à cidade, de vez em quando…

Que transtorno para a geladeira, o cozido, a novela, o banho quente, a iluminação noturna… Tudo imprevisível!

Perdemos a sintonia com Deus porque apenas de vez em quando cultivamos abnegação, algo que deveria ser de vez em sempre.

*

Para superar o comportamento de-vez-enquandário, no cultivo da abnegação, há o outro sentimento recomendado pelo Espírito de Verdade – o devotamento, assim definido pelo dicionário:

Qualidade de quem se dedica em favor de alguém ou de uma causa.

Quando aliamos a abnegação, o desejo de servir, ao devotamento, o servir com dedicação, a vida flui melhor em nossas veias e somos capazes de todos os sacrifícios e renúncias em favor do bem comum.

Temos marcante exemplo na figura da mãe.

Naturalmente abnegada, porque responsável por alguém que lhe é inteiramente dependente, será a devoção ao filho que lhe sustentará energia sem fim, disposta a ver no bem-estar dele o espelho em que se mira afortunada, luz que lhe põe nos olhos novo brilho, conforme a expressão feliz de Coelho Neto.

Ocorre que os filhos não são nossos, como enfatiza Khalil Gibran, no seu poema famoso – são filhos da ânsia da vida… E um dia eles partem, batem asas, buscam outros horizontes e sua própria realização, e fica a mãe com a síndrome do ninho vazio, marcada por insuperável nostalgia, a repercutir negativamente em seus estados de ânimo.

Algo semelhante ao profissional abnegado, que se devota a uma empresa, entregando-se de corpo e alma, centralizando nela todas as suas aspirações. Quando obrigado a afastar-se em virtude da aposentadoria, pela enfermidade ou pelos azares da profissão, cai em depressão, angustia-
-se como se lhe faltasse o chão.

O devotamento a que se refere o Espírito de Verdade não deve limitar-se aos cuidados humanos em relação à família ou à profissão.

É preciso ir além, buscando as realizações divinas, no campo do bem e da verdade.

Nunca nos faltarão energia e bom ânimo enquanto estivermos dispostos a dar o melhor de nosso esforço em favor do bem comum, cultivando abnegação e devotamento.

Na medida em que esses dois sentimentos estiverem presentes em nossas ações, não de vez em quando, mas permanentemente, iremos compreendendo, em toda sua extensão, o que quis dizer o Espírito de Verdade ao proclamar que com esse comportamento o coração bate melhor, a alma se torna tranqüila e o corpo se isenta de seus males.

Autor: Richard Simonetti
Fonte: Reformador – Fevereiro 2007

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