Conclusão – O Livro dos Espíritos (Allan Kardec)

CONCLUSÃO 1

Aquele que do magnetismo terrestre conhece apenas o brinquedo dos patinhos imantados, que se movimentam numa bacia com água sob a ação do ímã, dificilmente poderá compreender que ali está o segredo do mecanismo do universo e dos movimentos dos planetas.

O mesmo acontece com quem conhece do Espiritismo somente o fenômeno das mesas girantes1; vê apenas um divertimento, um passatempo da sociedade, e não compreende que esse fenômeno tão simples e comum, conhecido da Antiguidade e até mesmo dos povos semi-selvagens, possa ter alguma ligação com as questões da maior importância para a sociedade humana. Para o observador comum, de fato, que relação a simplicidade de uma mesa que se move pode ter com a moral e o futuro da humanidade? Mas aquele que ponderar há de se lembrar que da simples panela que ferve e ergue a tampa com a pressão do vapor, fato que também ocorre desde toda a Antiguidade, saiu o poderoso motor com que o homem transpõe o espaço e supera as distâncias. Pois bem! Vós, que não credes em nada fora do mundo material, sabei que da mesa que se move e provoca vossos sorrisos desdenhosos saiu uma ciência e a solução de problemas que nenhuma filosofia pudera ainda resolver. Apelo para todos os adversários de boa-fé e os desafio a dizer se se deram ao trabalho de estudar o que criticam; porque, em boa lógica, a crítica só tem valor quando o crítico conhece aquilo que critica. Zombar de uma coisa que não se conhece, que não se pesquisou com o critério do observador consciencioso, não é criticar, é dar prova de leviandade e dar uma pobre idéia de sua capacidade de julgamento. Certamente, se tivéssemos apresentado esta filosofia como obra de um cérebro humano, ela teria encontrado menos desprezo e receberia as honras do exame daqueles que pretendem dirigir a opinião pública; mas ela vem dos Espíritos! Que absurdo! É com muito custo que lhe dispensam um de seus olhares; julgam apenas pelo título, como o macaco da fábula julgou a noz pela casca. Ignorai, se quiserdes, sua origem: suponde que este livro seja obra de um homem e dizei, conscientemente, se, após uma leitura séria, encontrais nele motivo para zombaria.
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1 – Fenômeno das mesas girantes: na Introdução, capítulo 3, Allan Kardec se refere “à série progressiva dos fenômenos”, a história que acabaria por originar esta obra. Entre eles está a das mesas falantes ou girantes (N. E.).
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CONCLUSÃO 2

O Espiritismo é o antagonista mais terrível do materialismo! Não é de admirar que tenha os materialistas como adversários. Mas como o materialismo é uma doutrina que poucos se atrevem a confessar abertamente (prova de que não estão seguros de suas convicções e são dominados por essa insegurança), eles se defendem com o manto da razão e da ciência, e, o que é estranho, os mais descrentes até mesmo falam em nome da religião, que também não conhecem e não compreendem, como o Espiritismo. Seu ponto de ataque se concentra principalmente no maravilhoso e no sobrenatural, que não admitem. De acordo com eles, o Espiritismo, estando fundado no maravilhoso, não passa de uma suposição ridícula. Eles não pensam que ao condenar, sem restrição, o processo do maravilhoso e do sobrenatural, condenam a religião. De fato, a religião está fundada na revelação e nos milagres; portanto, o que é a revelação senão comunicações extra- humanas? Todos os autores sagrados, desde Moisés, falaram desses gêneros de comunicações. O que são os milagres senão fatos maravilhosos e sobrenaturais por excelência, uma vez que são, no sentido litúrgico2, uma anulação das leis da natureza? Portanto, ao rejeitar o maravilhoso e o sobrenatural, rejeitam as próprias bases de toda religião. Mas não é sob esse ponto de vista que devemos encarar a questão. O Espiritismo não tem de examinar se existem ou não milagres. Se Deus pôde, em certos casos, alterar as leis eternas que regem o universo, o Espiritismo deixa, em relação a isso, toda a liberdade de crença. Diz e prova que os fenômenos em que se apóia nada têm de sobrenatural, a não ser na aparência. Esses fenômenos não parecem naturais aos olhos de certas pessoas, porque estão fora do comum e diferentes dos fatos conhecidos. Mas não são mais sobrenaturais do que todos os fenômenos dos quais a ciência nos dá hoje a solução e que pareciam maravilhosos antes, em uma outra época. Todos os fenômenos espíritas, sem exceção, são conseqüência de leis gerais. Revelam-nos um dos poderes da natureza, poder desconhecido, ou melhor, incompreendido até aqui, mas que a observação demonstra estar na ordem das coisas. O Espiritismo se fundamenta menos no maravilhoso e no sobrenatural do que a própria religião; aqueles que o atacam sob esse aspecto é porque não o conhecem, e ainda que fossem os homens mais sábios, nós lhes diríamos: se a ciência, que vos ensinou tanta coisa, não ensinou que o domínio da natureza é infinito, sois apenas meio sábios.
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2 – Litúrgico: referente à liturgia, que é o culto público e oficial instituído por uma igreja; ritual (N. E.).
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CONCLUSÃO 3

Conforme dizeis, desejais curar o século dessa mania de credulidade que ameaça invadir o mundo. Gostaríeis que o mundo fosse dominado pela incredulidade que procurais propagar? Não é por causa da ausência de toda crença que se deve atribuir o relaxamento dos laços de família e a maior parte das desordens que minam a sociedade? Ao demonstrar a existência e a imortalidade da alma, o Espiritismo reaviva a fé no futuro, levanta os ânimos abatidos, faz suportar com resignação as contingências da vida. Ousaríeis chamar a isso um mal? Duas doutrinas se defrontam: uma que nega o futuro, a outra que o proclama e o prova; uma que nada explica, a outra que explica tudo e por isso mesmo se dirige à razão; uma é a confirmação do egoísmo, a outra dá uma base à justiça, à caridade e ao amor de seus semelhantes. A primeira mostra apenas o presente e aniquila toda esperança, a segunda consola e mostra o vasto campo do futuro; qual é a mais nociva?

Certas pessoas, dentre as mais descrentes, se fazem apóstolos da fraternidade e do progresso; mas a fraternidade pressupõe o desinteresse, a renúncia da personalidade. Portanto, para a verdadeira fraternidade o orgulho é uma aberração. Com que direito se impõe um sacrifício àquele a quem dizeis que quando morrer tudo estará acabado; que amanhã talvez não será nada mais do que uma velha máquina desmantelada e jogada fora? Que razão terá ele para si mesmo impor uma renúncia qualquer? Não é mais natural que durante os breves instantes que lhe concedeis ele trate de viver o melhor possível? Daí vem o desejo de possuir muito para melhor desfrutar. Desse desejo nasce a inveja contra os que possuem mais que ele; e dessa inveja para a vontade de se apossar do que é dos outros basta apenas um passo. O que o detém? A lei? Mas a lei não abrange todos os casos. Direis que é a consciência, o sentimento do dever? Mas sobre o que baseais o sentimento do dever? Restará a esse sentimento uma razão de ser se estiver ligado à crença de que tudo termina com a vida? Com essa crença apenas uma doutrina é racional: cada um por si. As idéias de fraternidade, consciência, dever, humanidade e até mesmo de progresso são apenas palavras vãs. Vós que proclamais semelhantes doutrinas não sabeis todo o mal que fazeis à sociedade, nem por quantos crimes assumis a responsabilidade! Mas o que falo sobre responsabilidade? Para o descrente isso não existe, ele presta homenagem apenas à matéria.

CONCLUSÃO 4

O progresso da humanidade tem seu princípio na aplicação da lei de justiça, amor e caridade. Essa lei está fundada na certeza do futuro; se lhe tirais essa certeza, tirais sua pedra fundamental. Dessa lei derivam todas as outras, porque ela encerra todas as condições da felicidade do homem. Apenas ela pode curar as chagas da sociedade, e o homem pode julgar, comparando as idades e os povos, quanto sua condição melhora à medida que essa lei é mais bem compreendida e praticada. Note-se que se sua aplicação parcial e incompleta produz um bem real, o que não acontecerá quando ela for a base de todas as suas instituições sociais! Isso é possível? Sim, porque se ele já deu dez passos pode dar vinte, e assim por diante. Pode-se, portanto, julgar o futuro pelo passado. Já vimos pouco a pouco se extinguirem as antipatias de povo a povo; as barreiras que os separam diminuem com a civilização; eles se dão as mãos de um extremo a outro do mundo; uma justiça maior regula as leis internacionais; as guerras tornam-se cada vez mais raras e não excluem os sentimentos humanitários; a uniformidade se estabelece nas relações; as discriminações de raças e de castas acabam, e os homens de crenças diferentes fazem calar os preconceitos de seitas para se confundirem na adoração de um único Deus. Falamos dos povos que marcham à frente da civilização. (Veja as questões 789 e 793.)

Apesar de todos esses aspectos, ainda estamos longe da perfeição, e ainda existem muitos resíduos antigos para ser destruídos até que tenham desaparecido os últimos vestígios da barbárie. Mas esses resíduos poderão continuar contra a força irresistível do progresso, essa força viva que é, ela mesma, uma lei da natureza? Se a presente geração é mais avançada do que a passada, por que a seguinte não será mais avançada do que a nossa? Ela o será pela força das coisas; inicialmente porque com as gerações se extinguem dia a dia alguns campeões dos velhos abusos, e assim a sociedade se forma pouco a pouco de elementos novos que se libertaram dos velhos preconceitos. Em segundo lugar, porque o homem, desejando o progresso, estuda os obstáculos e se aplica em removê-los. Uma vez que o movimento progressivo é evidente, o progresso futuro não pode ser posto em dúvida. O homem quer ser feliz, e é natural esse desejo; portanto, ele procura o progresso apenas para aumentar sua felicidade, sem o que o progresso não teria sentido, em nada o serviria, se não melhorasse sua posição. Mas, quando tiver desfrutado o máximo de todos os prazeres que o progresso intelectual pode proporcionar, perceberá que não tem a felicidade completa; reconhecerá que essa felicidade sem a segurança das relações sociais é irrealizável, é impossível. Essa segurança ele só encontrará no progresso moral. Então, pela força das coisas ele mesmo conduzirá o progresso nesse sentido, e o Espiritismo será a mais poderosa alavanca para atingir esse objetivo.

CONCLUSÃO 5

Os que dizem que as crenças espíritas ameaçam invadir o mundo proclamam, desse modo, a força do Espiritismo, porque uma idéia sem fundamento e destituída de lógica não poderia se tornar universal. Assim, se o Espiritismo se implanta por toda parte, se tem como seguidores principalmente pessoas esclarecidas, como se pode constatar, é que tem um fundo de verdade. Contra essa tendência, todos os esforços de seus detratores3 serão inúteis, e a prova é que até mesmo o ridículo com que procuram cobri-lo, longe de amortecer sua marcha, parece lhe ter dado uma nova vida. Esse resultado justifica plenamente o que dizem repetidas vezes os Espíritos: “Não vos inquieteis com a oposição; tudo o que se fizer contra se tornará a favor, e os maiores adversários servirão à causa sem querer. Contra a vontade de Deus a má vontade dos homens não prevalece”.

Com o Espiritismo, a humanidade deve entrar numa nova fase, a do progresso moral, que é sua conseqüência inevitável. Parai, portanto, de vos espantar com a rapidez com que se propagam as idéias espíritas; a causa disso está na satisfação que elas proporcionam a todos os que nelas se aprofundam e que nelas vêem algo mais do que um fútil passatempo; portanto, como o homem quer sua felicidade acima de tudo, não é de estranhar que se apegue a uma idéia que faz as pessoas felizes.

O desenvolvimento dessas idéias apresenta três períodos distintos: o primeiro é o da curiosidade provocada pela estranheza dos fenômenos que se produziram; o segundo, do raciocínio e da filosofia; o terceiro, da aplicação e das conseqüências. O período da curiosidade passou. A curiosidade dura pouco; uma vez satisfeita, esquece-se o objeto para passar a um outro. O mesmo não acontece com o que recorre ao raciocínio sério e ao julgamento.

O segundo período começou, e o terceiro se seguirá inevitavelmente. O Espiritismo progrediu especialmente depois de ter sido mais bem compreendido na sua essência, desde que perceberam seu alcance, porque ele toca no ponto mais sensível do homem: o de sua felicidade, até mesmo neste mundo; aí está a causa de sua propagação, o segredo da força que o fará triunfar. Ele torna felizes aqueles que o compreendem, enquanto sua influência vai se ampliando sobre as massas. Até mesmo aquele que nunca testemunhou nenhum fenômeno das manifestações diz: “Além desses fenômenos, existe a filosofia; essa filosofia me explica o que NENHUMA outra havia me explicado; nela encontro, somente pelo raciocínio, uma demonstração racional dos problemas que interessam no mais alto grau ao meu futuro;
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3 – Detrator: aquele que deprecia ou difama o mérito ou a reputação de alguma coisa (N. E.).
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ele me proporciona a calma, a segurança, a confiança; livra-me do tormento da incerteza e, além disso, a questão dos fatos materiais passa a ser secundária”. Todos vós que atacais o Espiritismo quereis um meio de combatê-lo com sucesso? Aqui está. Trocai-o por algo melhor; indicai uma solução MAIS FILOSÓFICA a todas as questões que ele resolveu; dai ao homem uma OUTRA CERTEZA que o torne mais feliz e compreendei bem o alcance desta palavra certeza, já que o homem aceita como certo o que lhe parece lógico; não vos contenteis em dizer: “Isto não é assim”; é muito fácil fazer uma afirmativa dessas. Provai, não por uma negação, mas por meio de fatos, que isso não é real, nunca foi e NÃO PODE ser; se não é, dizei o que em seu lugar pode ser; provai, enfim, que as conseqüências do Espiritismo não tornam os homens melhores e, portanto, mais felizes, pela prática da mais pura moral evangélica, moral que muito é louvada, mas pouco praticada. Quando tiverdes feito isso, tereis o direito de o atacar. O Espiritismo é forte porque se apóia nas próprias bases da religião: Deus, a alma, os sofrimentos e as recompensas futuras; principalmete porque mostra esses sofrimentos e recompensas como conseqüências naturais da vida terrestre, e que nada, no quadro que oferece do futuro, pode ser recusado pela razão mais exigente. Vós, cuja doutrina é a negação do futuro, que compensação ofereceis aos sofrimentos aqui da Terra? Vós vos apoiais na incredulidade, o Espiritismo se apóia na confiança em Deus; enquanto ele convida os homens à felicidade, à esperança, à verdadeira fraternidade, vós ofereceis o NADA por perspectiva e o EGOÍSMO por consolação. Ele explica tudo, vós não explicais nada; ele prova pelos fatos e vós não provais nada. Como quereis que as pessoas duvidem entre as duas doutrinas?

CONCLUSÃO 6

Seria fazer uma idéia muito falsa do Espiritismo acreditar que sua força vem das manifestações materiais e que, impedindo essas manifestações, pode-se miná-lo em sua base. Sua força está na filosofia, no apelo que faz à razão, ao bom senso. Na Antiguidade, era objeto de estudos misteriosos, cuidadosamente escondidos do povo. Hoje, não tem segredos para ninguém; fala uma linguagem clara, sem equívocos. Nele não há nada de místico, nada de alegorias passíveis de falsas interpretações; quer ser compreendido por todos, porque chegou o tempo de as pessoas conhecerem a verdade; longe de se opor à difusão da luz, ele a revela para todas as pessoas. Não exige uma crença cega, quer que se saiba por que se crê; ao se apoiar na razão, será sempre mais forte do que aqueles que se apóiam no nada. Os obstáculos que tentassem antepor à liberdade das manifestações poderiam lhe dar fim? Não, porque só produziriam o efeito de todas as perseguições: o de estimular a curiosidade e o desejo de conhecer o que é proibido. Por outro lado, se as manifestações espíritas fossem privilégio de um único homem, ninguém duvida que, pondo esse homem de lado, as manifestações acabariam. Infelizmente, para os adversários, elas estão ao alcance de todos, desde o simples até o sábio, desde o palácio até ao mais humilde casebre; qualquer um pode a elas recorrer. Pode-se proibir que sejam feitas em público; mas sabe-se precisamente que não é em público que elas se produzem melhor, e sim reservadamente. Portanto, como cada um pode ser médium, quem pode impedir uma família no seu lar, um indivíduo no silêncio de seu gabinete, o prisioneiro na cela, de ter comunicação com os Espíritos, apesar da proibição dos seus opositores e mesmo na presença deles?

Se as proíbem em um país poderão impedi-las nos países vizinhos, no mundo inteiro, uma vez que não há um país, em qualquer dos continentes, onde não haja médiuns? Para prender todos os médiuns seria preciso prender a metade da população humana; se até mesmo chegassem, o que não seria muito fácil, a queimar todos os livros espíritas, estariam reproduzidos no dia seguinte, porque sua fonte é inatacável, e não se podem prender nem queimar os Espíritos, que são seus verdadeiros autores.

O Espiritismo não é obra de um homem; ninguém se pode dizer seu criador, porque ele é tão antigo quanto a Criação; encontra-se por toda parte, em todas as religiões e na religião Católica ainda mais, e com mais autoridade do que em qualquer outra, porque nela se encontram os mesmos princípios: os Espíritos de todos os graus, suas relações ocultas e patentes com os homens, os anjos de guarda, a reencarnação, a emancipação da alma durante a vida, a dupla vista, as visões, as manifestações de todos os gêneros, as aparições e até mesmo as aparições tangíveis, isto é, as materializações. Com relação aos demônios, não passam de maus Espíritos e, salvo a crença de que foram destinados ao mal por toda a eternidade, enquanto o caminho do progresso está livre para os outros existe entre eles apenas a diferença de nome.

O que faz a ciência espírita moderna? Ela reúne num corpo de doutrina o que estava esparso; explica em termos próprios o que estava somente em linguagem alegórica; elimina o que a superstição e a ignorância produziram para deixar apenas a realidade e o positivo: eis seu papel; mas o de fundadora não lhe cabe. A Doutrina Espírita mostra o que é, coordena, mas não cria nada, por isso suas bases são de todos os tempos e de todos os lugares. Quem, pois, ousaria se acreditar forte o suficiente para abafá-la com sarcasmos e até mesmo com a perseguição? Se a proibirem num lugar, renasce em outros, no próprio terreno de onde a expulsaram, porque está na natureza e não é dado ao homem anular uma força da natureza nem opor seu veto aos decretos de Deus.

Afinal, que interesse haveria em entravar a propagação das idéias espíritas? Essas idéias, é bem verdade, se opõem aos abusos que nascem do orgulho e do egoísmo. Porém, esses abusos de que alguns se aproveitam prejudicam a coletividade humana que, portanto, será favorável às idéias espíritas, que terão como adversários sérios apenas aqueles que são interessados em manter esses abusos. Por sua influência, ao contrário, essas idéias, tornando os homens melhores uns para com os outros, menos ávidos dos interesses materiais e mais resignados aos decretos da Providência, são uma certeza de ordem e de tranqüilidade.

CONCLUSÃO 7

O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: as manifestações, os princípios de filosofia e de moral que delas decorrem e a aplicação desses princípios; daí, três classes, ou três graus, entre os espíritas:

1ª) aqueles que acreditam nas manifestações e se limitam em constatá-las: para eles, o Espiritismo é uma ciência experimental;
2ª) aqueles que compreendem suas conseqüências morais;
3ª) aqueles que praticam ou se esforçam para praticar essa moral.

Seja qual for o ponto de vista, científico ou moral, sob o qual se considerem esses fenômenos, cada um deles significa que é uma ordem totalmente nova de idéias que surge, cujas conseqüências resultarão numa profunda modificação na humanidade, e também compreende que essa modificação pode apenas acontecer no sentido do bem.

Quanto aos adversários, pode-se também classificá-los em três categorias: 1ª) aqueles que negam sistematicamente tudo o que é novo ou que não vem deles e que falam disso sem conhecimento de causa. A essa classe pertencem os que não admitem nada fora da evidência dos sentidos; não viram nada, nada querem ver e ainda menos se aprofundar. Ficariam até mesmo aborrecidos se vissem as coisas muito claramente, com medo de serem forçados a admitir que não têm razão. Para eles, o Espiritismo é uma fantasia, uma loucura, uma utopia; ele não existe: está dito tudo. São os incrédulos de propósito. Ao lado deles, pode-se colocar aqueles que não se dignam em dar aos fatos a mínima atenção, nem por desencargo de consciência, e poderem dizer: quis ver e nada vi. Não compreendem que seja preciso mais de meia hora para se dar conta de toda uma ciência. 2ª) Aqueles que, sabendo muito bem o que pensar da realidade dos fatos, os combatem, todavia, por motivos de interesse pessoal. Para eles, o Espiritismo existe, mas têm medo de suas conseqüências; atacam- no como a um inimigo. 3ª) aqueles que encontram na moral espírita uma censura muito severa aos seus atos e às suas tendências. O Espiritismo, levado a sério, os incomodaria; eles nem o rejeitam nem o aprovam: preferem fechar os olhos. Os primeiros são dominados pelo orgulho e pela presunção; os segundos, pela ambição; os terceiros, pelo egoísmo. Compreende-se que essas causas de oposição, não tendo nada de sólido, devem desaparecer com o tempo, porque procuraríamos em vão uma quarta classe de antagonistas, opositores que se apoiassem em provas contrárias, concretas, e apresentassem um estudo contestador mas bem claro da questão. Todos apenas opõem a negação, nenhum oferece demonstração séria e irrefutável.

Seria esperar demais da natureza humana acreditar que ela possa se transformar subitamente pelas idéias espíritas. A ação da idéia espírita não é claramente nem a mesma, nem no mesmo grau em todos aqueles que as professam. Mas, seja qual for o resultado, por pequeno que seja, é sempre um melhoramento, bastará apenas provar a existência de um mundo extracorpóreo, o que implica a negação das doutrinas materialistas. Isso é a própria conseqüência da observação dos fatos. Porém, para os que compreendem o Espiritismo filosófico e nele vêem além dos fenômenos mais ou menos curiosos, os efeitos são outros. O primeiro, e mais geral, é de desenvolver o sentimento religioso até mesmo naquele que, sem ser materialista, sente apenas indiferença pelas coisas espirituais. Disso resultará para ele a serenidade perante a morte; porém, em vez de desprezar ou desejar a morte, o espírita defenderá sua vida como outro qualquer, mas tranqüilamente aceita, sem lamentos, uma morte inevitável como uma coisa mais feliz do que temível, pela certeza que tem do que lhe acontecerá. O segundo efeito, quase tão geral quanto o primeiro, é a resignação nas alternâncias da vida. O Espiritismo faz ver as coisas de tão alto que a vida terrestre passa a ter a sua verdadeira importância e o homem não se aflige tanto com os tormentos que o acompanham: daí, quanto mais coragem nas aflições, mais moderação nos desejos; daí também o afastamento do pensamento de abreviar seus dias, porque a ciência espírita ensina que, pelo suicídio, perde-se sempre o que se queria ganhar. A certeza de um futuro que depende de nós mesmos tornar feliz, a possibilidade de estabelecer relações com seres que nos são queridos oferecem ao espírita uma consolação suprema. Seu horizonte se amplia até ao infinito pelo espetáculo incessante que tem da vida além da morte, da qual pode sondar os mistérios profundos. O terceiro efeito é estimular no homem o perdão e a tolerância para com os defeitos dos outros. Mas é preciso ficar claro que o princípio egoísta e tudo que dele decorre são o que existe de mais obstinado no homem e, conseqüentemente, o mais difícil de arrancar pela raiz. Fazemos sacrifícios voluntariamente, contanto que nada custem e de nada nos privem. O dinheiro ainda é, para o maior número de pessoas, um atrativo irresistível, e bem poucos compreendem a palavra supérfluo, quando se trata de sua pessoa. Assim a renúncia da personalidade é sinal do mais eminente progresso.

CONCLUSÃO 8

Os Espíritos, perguntam certas pessoas, nos ensinam uma moral nova, superior à que ensinou o Cristo? Se essa moral é a do Evangelho, para que serve o Espiritismo? Esse raciocínio assemelha-se ao do califa Omar, referindo-se à biblioteca de Alexandria: “Se ela contém, dizia ele, apenas o que existe no Alcorão, é inútil; portanto, deve ser queimada. Se contém outra coisa, é má; portanto, ainda é preciso queimá-la”. Não, o Espiritismo não ensina uma moral diferente da de

Jesus; mas perguntaremos: Antes de Cristo os homens não tinham a lei dada por Deus a Moisés? Sua doutrina não se encontra no Decálogo? Por isso, se dirá que a moral de Jesus era inútil? Perguntaremos ainda àqueles que negam a utilidade da moral espírita: por que a do Cristo é tão pouco praticada e porque os que lhe proclamam com justiça a sublimidade são os primeiros a violar a primeira de suas leis: a caridade universal ? Os Espíritos vêm não apenas confirmá-la, mas mostram sua utilidade prática; tornam inteligíveis e claras verdades que tinham sido ensinadas apenas sob forma alegórica; e, ao lado da moral, vêm definir os problemas mais profundos da psicologia. Jesus veio mostrar aos homens o caminho do verdadeiro bem; porque Deus, que o enviou para fazer lembrar sua lei desprezada, não enviaria hoje Espíritos para lhes lembrar de novo e com mais precisão, quando a esquecem para tudo sacrificar ao orgulho e à cobiça? Quem ousaria impor limites ao poder de Deus e Lhe traçar normas? Quem nos diz que, como afirmam os Espíritos, não são chegados os tempos preditos e que não chegamos ao tempo em que as verdades mal compreendidas ou falsamente interpretadas devam ser abertamente reveladas à humanidade para apressar seu adiantamento? Não há algo de providencial nessas manifestações que se produzem simultaneamente em todos os pontos do globo? Não é apenas um único homem, ou um profeta, que vem nos advertir. A luz surge de todas as partes. É um mundo totalmente novo que se desdobra aos nossos olhos. Assim como a invenção do microscópio nos mostrou o mundo dos infinitamente pequenos que desconhecíamos que existissem e o telescópio nos mostrou milhares de sóis e planetas que também desconhecíamos, as comunicações espíritas revelam o mundo invisível que nos cerca, cujos habitantes se acotovelam conosco constantemente e, contra nossa vontade, tomam parte em tudo que fazemos. Mais algum tempo e a existência desse mundo, que nos espera, também será tão incontestável quanto o mundo microscópico e dos sóis e planetas que giram no espaço. De nada, então, nos valerá nos terem feito conhecer todo um mundo? De nos ter iniciado nos mistérios da vida além-morte? É verdade que essas descobertas, se assim podemos chamar, contrariam de certo modo certas idéias pré-estabelecidas. Mas todas as grandes descobertas científicas não modificaram igualmente, e até mesmo derrubaram, as idéias de maior crédito? E não foi preciso que nosso amor-próprio se curvasse diante da evidência?

O mesmo acontecerá com relação ao Espiritismo e, em pouco tempo, ele terá o direito de ser citado entre os conhecimentos humanos.

As comunicações com os seres desencarnados deram por resultado nos fazer compreender a vida futura, fazendo com que a vejamos, nos preparando para os sofrimentos e prazeres que nos esperam segundo nossos méritos e por isso mesmo encaminhar para o espiritualismo aqueles que viam nos homens apenas a matéria, a máquina organizada. Também tivemos razão em dizer que o Espiritismo matou o materialismo pelos fatos. Se tivesse produzido apenas esse resultado, já bastante gratidão lhe deveria a sociedade; porém, faz mais: mostra os inevitáveis efeitos do mal e, conseqüentemente, a necessidade do bem. O número daqueles a quem proporcionou sentimentos melhores, neutralizou as más tendências e desviou do mal é maior do que se pode pensar e aumenta todos os dias. É que para estes o futuro deixou de ser uma coisa imprecisa, vaga; não é mais uma simples esperança, é uma verdade que se compreende, que se explica, quando se vêem e ouvem aqueles que vêm até nós se lamentar ou se felicitar pelo que fizeram na Terra. Todo aquele que é testemunha disso se põe a refletir e sente a necessidade de se conhecer, de se julgar e de se modificar.

CONCLUSÃO 9

Os adversários do Espiritismo não se esqueceram de se armar contra ele com algumas divergências de opiniões sobre certos pontos da Doutrina. Não deveria causar estranheza nem é de admirar que, no início de uma ciência, quando as observações ainda são incompletas e cada um a considera sob seu ponto de vista, sistemas contraditórios tenham oportunidade de aparecer. Mas, hoje, a grande maioria desses sistemas já caiu diante de um estudo mais aprofundado, a começar pelo que atribuía todas as comunicações ao Espírito do mal, como se fosse impossível a Deus enviar aos homens bons Espíritos; doutrina absurda, pois é desmentida pelos fatos; incrédula, porque é a negação do poder e da bondade do Criador. Os Espíritos sempre nos aconselharam a não nos inquietarmos com essas divergências e que a unidade se daria. A unidade já está firmada na maioria dos pontos, e as divergências tendem cada dia a desaparecer. Com relação a essa questão perguntou-se aos Espíritos: enquanto se aguarda a união, sobre o que pode o homem imparcial e desinteressado basear- se para formar um julgamento? Eis a resposta:

“A luz mais pura não é obscurecida por nenhuma nuvem; o diamante puro tem mais valor; julgai, portanto, os Espíritos, de acordo com a pureza de seus ensinamentos. Não esqueçais que entre os Espíritos existem aqueles que ainda não se livraram das idéias da vida terrestre; sabei distingui-los por sua linguagem; julgai-os pelo conjunto do que dizem; vede se existe encadeamento lógico em suas idéias; se nelas nada revela ignorância, orgulho ou malevolência; em resumo, se suas palavras trazem sempre o cunho da sabedoria que manifesta a verdadeira superioridade. Se vosso mundo fosse inacessível ao erro, seria perfeito, e ele está longe disso. Ainda estais nele para aprender a distinguir o erro da verdade; faltam as lições da experiência para exercer vosso julgamento e vos fazer avançar. A unidade se produzirá do lado em que o bem nunca foi misturado com o mal; é desse lado que os homens se unirão pela força das coisas, porque reconhecerão que aí está a verdade.

Que importam, aliás, algumas divergências que estão mais na forma do que no fundo! Notai que os princípios fundamentais são por toda parte os mesmos e devem vos unir por um pensamento comum: o amor de Deus e a prática do bem. Seja qual for, assim, o modo de progresso que se supõe ou as condições normais de existência futura, o objetivo final é o mesmo: fazer o bem; portanto, não existem duas maneiras de fazê-lo.

Se, entre os adeptos do Espiritismo, existem aqueles que diferem de opinião sobre alguns pontos da teoria, todos concordam sobre os pontos fundamentais. Há, portanto, unidade, exceto da parte dos que, em número muito reduzido, não admitem ainda a intervenção dos Espíritos nas manifestações e as atribuem ou a causas puramente físicas, o que é contrário a esta máxima: “Todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente”, ou a um reflexo do próprio pensamento4 dos homens, o que é desmentido pelos fatos. Os outros pontos são apenas secundários e não comprometem em nada as bases fundamentais. Pode, portanto, haver escolas que procuram se esclarecer sobre as partes ainda controvertidas da ciência, mas não devem ser rivais entre si. A contradição apenas deve existir entre aqueles que querem o bem e aqueles que fariam ou desejariam o mal. Ora, não existe um espírita sincero e compenetrado nos grandes ensinamentos morais ensinados pelos Espíritos que possa querer o mal nem desejar o mal
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4 – No item 16 da Introdução, Kardec faz uma reflexão e um estudo sobre a questão (N. E.).
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de seu próximo sem distinção de opinião. Se uma dessas escolas está no erro, a luz, cedo ou tarde, se fará para ela, desde que haja boa-fé e ausência de prevenção. Enquanto isso, todas têm um laço comum que deve uni-las em um mesmo pensamento; todas têm um mesmo objetivo. Pouco importa o caminho, uma vez que conduza a essa meta. Nenhuma deve se impor pelo constrangimento material ou moral, e estaria no caminho falso apenas aquela que condenasse ou reprovasse a outra, porque agiria evidentemente sob a influência de maus Espíritos. A razão deve ser o supremo argumento e a moderação assegurará melhor o triunfo da verdade do que as críticas envenenadas pela inveja e pelo ciúme. Os bons Espíritos ensinam apenas a união e o amor ao próximo. Nunca um pensamento mau ou contrário à caridade pode provir de uma fonte pura. Estudemos sobre este assunto e, para terminar, os conselhos do Espírito de Santo Agostinho:

“Por muito tempo, os homens se estraçalharam e se amaldiçoaram em nome de um Deus de paz e de misericórdia, ofendendo-o com semelhante sacrilégio. O Espiritismo é o laço que os unirá um dia, porque mostrará onde está a verdade e onde está o erro. Mas haverá ainda por muito tempo escribas e fariseus5 que o negarão, como negaram o Cristo. Quereis saber sob a influência de que Espíritos estão as diversas seitas que dividiram entre si o mundo? Julgai-as por suas obras e princípios. Nunca os bons Espíritos foram os instigadores do mal; nunca aconselharam nem legitimaram o assassinato e a violência; nunca excitaram os ódios dos partidos, nem a sede das riquezas e das honras, nem a avidez dos bens da Terra. Somente aqueles que são bons, humanos e benevolentes para com todos são seus preferidos e são também os preferidos de Jesus, porque seguem o caminho indicado para chegar até ele.”

Santo Agostinho

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5 – Escribas e fariseus: figuras do Evangelho. Neste caso, gente falsa, fingida, pérfida, traiçoeira (N. E.).
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